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Tópico: AFETIVIDADE: CONVERGÊNCIA ENTRE EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA E A EDUCAÇÃO DIALÓGICA  (Lida 1847 vezes)
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« em: Janeiro 09, 2007, 12:36:43 »


AFETIVIDADE: CONVERGÊNCIA ENTRE EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA E A EDUCAÇÃO DIALÓGICA DE PAULO FREIRE

http://www.pensamentobiocentrico.com.br/

Prof. Dr. Agostinho Mario Dalla Vecchia


Resumo
Este é um ensaio sobre a afetividade na Educação Biocêntrica e na Educação Dialógica de Paulo Freire. Será um início de discussão e reflexão sobre o tema. Para isso destacaremos inicialmente aspectos introdutórios e conceituais sobre a afetividade. A seguir, serão abordados os temas: Educação e Afetividade na perspectiva da Biodanza e da Educação Biocêntrica, Afetividade e sua dimensão biológica, Afetividade como inteligência da vida no universo, A amorosidade permeando o universo- a afetividade permeando a vida humana, A inteligência afetiva.e, por último, a Tendência Evolucionária da Educação. Definitivamente começamos a abordar o tema da Afetividade na Educação Biocêntrica e na Pedagogia Dialógica de Paulo Freire.


Palavras-chave
Educação; Afetividade; Convergência


Palavras iniciais
Segundo a Educadora e Facilitadora Ruth Cavalcante (2001: 33), a Educação Biocêntrica é a Pedagogia do Encontro. Ela faz parte, juntamente com a tendência Dialógica de Paulo Freire, da convergência e encontro de Tendências Pedagógicas que apresentam uma centralidade na vida, encontro de perspectivas pedagógicas que trazem uma Tendência Evolucionária da Educação nas suas formas de pensar e de desenvolver a ação pedagógica.

Onde há convergência há elementos comuns e elementos que se inclinam na mesma perspectiva de abordagem de uma realidade, no caso, a educação. Com certeza são muitos os elementos comuns e elementos que se aproximam no pensamento e na ação de ambas as tendências pedagógicas. Nós pretendemos iniciar uma reflexão que permita destacar um elemento apenas, com certeza o fundamental para o desenvolvimento do processo pedagógico: a afetividade
Para isso será realizada uma abordagem mais ampla sobre a questão da afetividade, essencialmente baseados em Rolando Toro (Apostilas das Escolas de Formação) para depois iniciar o ensaio sobre a convergência das duas pedagogias, destacando o lugar de centralidade que o afeto assume como base estrutural do conhecimento, da educação e seus processos, dinâmicas, relações educador-educando.


1. Aspectos introdutórios e conceituais
Empreendemos neste momento a reflexão sobre a afetividade na educação, e vamos trabalhar na perspectiva da Educação Biocêntrica que é originária da Visão Biocêntrica, se inspira no Princípio Biocêntrico (na vida, portanto), e se articula com o Sistema de Biodanza. Na parte seguinte destacaremos as convergências entre a Educação Biocêntrica e Paulo Freire, duas formas de abordagem da educação que integram a chamada Educação Evolucionária.

A Biodanza é uma forma de operacionalização da educação que integra o desenvolvimento dos potenciais humanos de saúde, expressando as emoções mais profundas, nos colocando em contato com o mais originário e natural da vida em nós, de forma articulada com a educação formal. O objetivo é o desenvolvimento integrado de uma saber racional com o saber vivencial.

A referência é a vida. Um saber racional integrado ao saber vivencial resgata a potência de ação política e social do homem no mundo. O modo operacional para o desenvolvimento e expressão dos potenciais humanos utiliza a música, o movimento, a palavra poética do facilitador em situações de grupo para que, de forma ritual, se desencadeie a emoção num processo orgânico que vai possibilitar a recuperação das condições originárias da vida.

A aplicação do método de Biodanza integrado à Educação, permite atingir nosso mundo instintivo, desencadear a emoção a ela vinculada, desenvolver os sentimentos, deflagrar o bombardeio hormonal que vai atuar sobre o sistema límbico-hipotalâmico e sobre a estrutura genética, num processo que possibilita um conhecimento mais consistente. É um conhecimento sensível, emocional, vivencial que nos põe em conexão integral com a realidade, numa percepção mais abrangente que a fornecida pela razão. O dado estratégico da Biodanza é o contato, o instrumento é a vivência. O objetivo é a criação de vínculos.

O conhecimento racional tem sua raiz na afetividade. Rolando Toro fala da inteligência afetiva. É neste sentido que a Educação Biocêntrica atua fundamentalmente com a afetividade. A afetividade é um estado de afinidade profunda com o ser do outro que origina sentimentos de amor, amizade, altruísmo, maternidade, paternidade, fraternidade. É um sentimento que envolve o outro ser humano, um sentimento de amor à espécie. A afetividade nos identifica com as pessoas para compreendê-las, amá-las, protegê-las, cuidá-las ou rechaçá-las e agredi-las (TORO, 1999, 3, Apostila)

A afetividade tem expressão privilegiada no amor e pode ter as dimensões de amor diferenciado, orientado a uma pessoa específica ou pode ter a dimensão de um amor indiferenciado, como o amor pelos educandos, pela comunidade, pelo povo, pela humanidade.

Ao mesmo tempo ela é expressão da Identidade e processa a sua integração. Quando a Identidade é débil a pessoa é incapaz de amar, não aceita a diversidade, cria vínculos defensivos. É o caso da pessoa racista. Existem também, por isso, as patologias da Identidade que se expressam no ciúme exagerado, na raiva, no ódio e no racismo (TORO, 1999:4).

A vivência da afetividade (propiciada na Educação integrada à vida) facilita uma Renovação Biológica. Isto se consegue através da Regressão e da Progressão. Nestas vivências encontramos ressonância permanente com o originário. Pela rigidez do ego a nossa cultura bloqueia a expressão da afetividade. É preciso regredir à condição de semente, em uma ação anticultural. Estes tipos de exercício podem ser facilitados por pessoas habilitadas. Raramente ocorrem naturalmente nas condições de vida em que vivemos (TORO, 1999:6).

Quanto à sua natureza a afetividade é um sentimento porque dura no tempo. É distinta da emoção embora a envolva. A emoção é de momentos e de intensidade. Tem uma base instintiva, que passa pela sensação, que provoca a emoção, que ao ser elaborada é significada e se torna sedimentada, sentimento. O sentimento dura no tempo. A emoção é fugaz.

Ao desenvolver nossa capacidade de educadores não exercemos apenas um ofício, um papel, mas, através da nossa capacidade de vínculo, de amar, de sermos nutritivos, de expressar nossa amorosidade por nosso educando, estamos promovendo o desenvolvimento de sua Identidade, de sua articulação orgânica e integrada consigo mesmo, com o outro, com a comunidade, com o cosmos. A construção do conhecimento deve estar integrada à afetividade para o educando desabrochar a consciência crítica, o engajamento transformador e criativo, numa Identidade saudável, na sabedoria que integra o saber racional e o saber da vida.

2. Educação e Afetividade na perspectiva
da Biodanza e da Educação Biocêntrica

2.1. Afetividade e sua dimensão biológica

Afetividade é uma exigência da sobrevivência. Por razão biológica, ao nascer o homem é o que mais necessita de nutrição afetiva. Através de milhões de anos o homem aumentou a massa encefálica. Assim, para nascer ele nasce ainda em estado fetal. Para esse pequeno ser crescer e com o tempo construir Identidade e independência, a afetividade é uma necessidade intensa. No processo de desenvolvimento cotidiano o homem precisa da nutrição afetiva como precisa do ar, da água, do alimento.

E a afetividade parte do instinto. O amor é cósmico. A afetividade é a forma que o amor assume no ser humano. Se a amorosidade que permeia o universo é o ingrediente da criação e da expansão do universo, a afetividade permite ao homem viver, crescer, criar-se, evoluir em seus potenciais ao infinito. Sem este elemento nutritivo a vida não permanece em nós. Qualquer um de nós morre sem afeto.

O afeto é o mesmo ingrediente que precisa a educação para ocorrer como processo de transmissão dos valores culturais, para a construção do conhecimento científico e social e, principalmente, para a construção da Identidade do educando Assim, “a gênese biológica da afetividade se relaciona com o instinto de solidariedade intra-espécie, impulsos gregários, tendências altruísticas e rituais de vínculo. Exemplos do fato são mostrados em cardumes, bandos e manadas” (TORO,1999:Cool.

A Biologia Celular revela que há verdadeiras comunidades de células que integram ações bioquímicas de “cooperação celular”. Em casos de necessidade chegam a alterar o comportamento bioquímico. Um choque afetivo na pessoa, uma perda afetiva profunda pode causar dissociações orgânicas e resultar num processo celular cancerígeno.

No homem, os impulsos instintivos culminam em sentimentos altruístas e constituem a gênese do amor. A proximidade de uma pessoa pode provocar uma misteriosa química em nós, mobilizando nossa mente, o sistema límbico-hipotalâmico, o sistema endócrino e a produção de hormônios. Enfim, uma renovação orgânica e do nosso ânimo. A presença do educador é importante na vida do educando especialmente pela forma como se relaciona e da forma como é e vive.

Educativamente somos sempre afetivos - na linha do amor ou da raiva e do ódio. A fúria de uma pessoa é expressão da frustração do amor. O ciúme, o ódio, a insegurança tem a ver com a expectativa amorosa. Afeto vem de afetar. Pode levar-me a compreender ou a rechaçar alguém. A educação que não considera o afeto, que não leva à expressão do afeto, nega e desconsidera a criatividade. A afetividade está estreitamente vinculada com a criatividade que tem nela o seu ingrediente básico. Na Educação Biocêntrica (centrada na vida) a criatividade é o recurso para expressar e realizar o afeto.

O núcleo da educação, portanto é a afetividade. A Identidade da pessoa se forma por um processo de identificação com o outro na afetividade. Uma das percepções fundamentais de Paulo Freire foi a de que a “amorosidade deve permear nossa sala de aula”(Pedagogia da Autonomia). A educação popular de conscientização e de politização dos trabalhadores foi possível pela inteira atitude ética de levar em conta a situação de alienação do camponês e, por essa percepção e adesão amorosa pela sua libertação. O processo educativo de conscientização, de mobilização e de resgate da Identidade foi possível. Na Identidade sólida e amorosamente integrada se dá a autonomia tão propalada. A Identidade se faz na relação.

O amor solidário, desprendido e sensível pela situação do pobre, somado a uma opção ética de luta pela sua libertação, deu sucesso essa pedagogia que se universalizou. Os políticos e partidários dos movimentos de esquerda que não tem integrado um discurso de mudança a uma atitude realmente amorosa, nada conseguem construir para uma nova sociedade. Por outro lado, são muitos e visíveis os exemplos de professores que tem um discurso avançado, dissociado de uma percepção e de uma atitude amorosa. Impõe seus discursos e se contradizem na prática.

É preciso uma educação emocional porque perdemos nossa capacidade instintiva de reconhecer a afetividade e suas qualidades em nós. O amor é o nosso principal alimento. Nossa cultura é patológica pela competição, pelo ódio, pela discriminação e pelo rancor que a perpassam. É uma cultura da morte e da destruição. Nossa sociedade é necrófita, até nas aparentemente banais fofocas. Se cultivarmos relações amorosas, inverteremos esse processo de dissociação profunda que há em nós e na sociedade, nas instituições, nas ciências, na filosofia, na religião, na economia, na política e na educação. Dissociamos corpo-alma, o conhecer e o saber, razão e emoção.

Afetivamente precisamos sair do nível da sobrevivência para o nível do viver, para a dimensão do viver amoroso, permeando a nossa existência e a do educando. O cuidado consigo mesmo e com o outro se dá simultaneamente na relação amorosa. “Ética é o cuidado pela vida sob as suas mais variadas formas” afirma Myrthes Gonzáles na Apresentação da nossa obra: Ética: afetividade e cuidado pela vida.

Uma das formas de destruir o outro é a desqualificação, tão freqüente nos meios educacionais. Ela vai distorcendo e destruindo o amor. A baixa auto-estima do professor o leva a manipular o aluno para ter o seu amor. O aluno que tem baixa auto-estima também engendra mecanismos de manipulação aos quais devemos estar atentos.

2.2. A afetividade é a inteligência da vida no universo
A afetividade determina a evolução completa do ser humano, desde a vida intra-uterina à maturidade. A inteligência tem sua base estrutural na afetividade. Os processos de adaptação ao meio, a construção do mundo se organizam em torno das protovivências afetivas. Há uma inteligência emocional. A capacidade de aprender, a memória, as percepções são condicionadas pela afetividade. As motivações existenciais que desenham nossa trajetória na vida são de natureza emocional. Assim, a estrutura seletiva, as preferências e o juízo estético são influenciados pela afetividade (TORO, 1999:13).

A afetividade é a inteligência cósmica. A inteligência ética não é intelectual, mas vivencial. Na Analética (Método da Filosofia da Educação, ou a própia filosofia da Libertaçao) Enrique Dussel também fala do ponto de partida essencial da ética que é a percepção do outro na condição de vítima, na pobreza, na miséria, na marginalidade, caído e explorado (DUSSEL, 2000). A inteligência ética tem suas origens na forma de organizar estruturalmente o mundo e a relação com os outros. O gênio da espécie não é a inteligência e sim a afetividade orientada à tolerância, à compaixão, à amizade e ao amor. A afetividade é a raiz nutritiva da vida (TORO, 1999:13).

“Nossa sociedade tem uma patologia afetiva ostensiva” (TORO, 1999:13). “A aprendizagem da linguagem, da literatura, da poesia, da arte, possui uma gênese afetiva” (TORO, 1999:13). Reiteramos a idéia de que é necessário que a educação considere a afetividade sadia e trabalhe integralmente com ela, mas considere também as suas patologias para atuar de forma pertinente e eficaz. A falta de amor a si mesmo gera autodestruição. A segunda forma patológica é a dificuldade de contato-comunicação. Outra patologia é a intolerância frente à diversidade gerando domínio e submissão. Outra doença do afeto em nossa cultura é o egocentrismo e o individualismo vinculados à idéia do ser como ter e como poder. O maior representante da visão holística no Brasil, Pierre Weil, afirma que “esses padrões (sociais) calcados na tendência à auto-afirmação excessiva, da sociedade dominada pelo paradigma mecanicista, implicam poder, controle e dominação dos outros pela força, numa classe organizada dominante em posições de poder mantidas de acordo com hierarquias sexistas e racistas, na ênfase na competição e não na cooperação, e no endeusamento de uma tecnologia que tem como meta o controle a produção em massa e a padronização” (Cf. TAVARES, Clotilde, 2000:62).

Essas patologias, umas individuais e outras sociais, devem ser consideradas na educação. Ignorá-las é desvincular-se da realidade, é abrir espaço para um processo desagregador provocado primeiro pela pessoa que trabalha em sala de aula e no contato com os colegas.

2.3. A amorosidade permeando o universo.
A afetividade permeando a vida humana
A amorosidade é a força criadora que organiza o surgimento, a expansão e a manutenção do universo. É a vida articulada no processo irreversível da criação, originando a surpresa de cada ser como sua expressão. A amorosidade permeia tudo no universo. Nós perdemos a sensibilidade e a percepção desta amorosidade, mergulhados em relações competitivas, endereçados a uma luta pela propriedade de bens para o consumo, de poder, de conhecimento. Nossa postura “objetiva” e mecanicista diante da realidade nos privaram da sensibilidade e, conseqüentemente perdemos o contato com o sagrado de cada manifestação da vida.

No reconhecimento desta amorosidade como afetividade no homem, é preciso buscar no processo educativo as atividades e vivências que engendrem os vínculos amorosos na escola e na sociedade. Uma das formas da afetividade é a amizade. É um dos sentimentos mais profundos e nobres, combinando a afetividade, o sentimento estético, a lealdade e a sintonia da consciência. Para Ronald Laing “um homem enfermo é quem não tem amigos”. A amizade é um sentimento que permite ao outro ser livre. Na amizade há profundo respeito pelo que o amigo sente. É um sentimento complexo que se aprofunda com o passar do tempo. “Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito” diz o canto de Milton Nascimento. Platão expressava o mesmo cuidado ao afirmar que não se deve deixar crescer o mal no caminho da amizade. Temos que cuidar do amigo (TORO, 1999:33).

Na amizade se cria uma rede mental, um código que só o compreendem os amigos. A fecundação de cérebros é um fenômeno real e se manifesta em aspectos intelectuais e existenciais. A amizade é essencialmente criadora. “Um homem sem verdadeiros amigos é efetivamente inconsistente. Ter um amigo é ter uma bem-aventurança, um maravilhoso dom da existência” (TORO, 1999:33).
A Biodanza propõe a “dança do amigo” e a escola deveria se preocupar de propiciar o surgimento dos sentimentos de simpatia e afinidade entre os alunos; identificar-se no olhar o mundo juntos, apesar das diferenças; permitir o confronto das divergências para se reconhecerem mutuamente e não se destruírem; realizar projetos e tarefas juntos, com os mesmos objetivos; celebrar o sucesso de ações realizadas em conjunto; escutar o coração do amigo, identificando-se com os sentimentos do outro; estimular a conservação dos sentimentos de amizade e de fidelidade (TORO, 1999:33).

Uma educação que não estimula a amizade e as relações afetivas sólidas não prepara o educando com o ingrediente da transformação, da mudança das estruturas a partir de relações solidárias promotoras da qualificação do outro. O entrelaçamento afetivo, amoroso e ético entre as pessoas é que sustenta e garante um mundo melhor. Neste sentido salta à vista a necessidade de educar para o tato e o contato, para a carícia e a ternura. A princípio parece impossível e o educador pode ruborizar diante desta exigência. Numa sociedade do conflito, da competição e da dissociação raramente experimentamos o abraço que sintetiza essas qualidades. Inicia-se de forma lenta e progressiva a educação afetiva. Ela é possível.

A emoção do abraço tem uma qualidade singular. É a proximidade do outro, em um ato recíproco, de sustentá-lo em toda sua humanidade, de assumi-lo corporal e espiritualmente. O abraço possui um matiz mais religioso que sexual. O abraço alude à fraternidade, à comunicação generosa. Tem sua fonte na certeza de pertencer a uma irmandade universal. O abraço é um meio supremo de perceber o outro como um semelhante. Mediante o abraço é possível alcançar o transe de fusão de duas Identidades em uma Identidade maior. O abraço é o ato político mais radical (TORO, 1999:23).

Atente-se para a importância da educação afetiva do educando e a promoção de seu desenvolvimento humano. O abraço é um ato de encontro de si mesmo e do outro. Trata-se de um ato sutil de fusão recíproca. “Para que esto sea posible, é necesario una atitud permissiva y un sincero deseo de recibir al otro” (TORO, 1999:33). É fácil abraçar pessoas íntimas, mas é difícil faze-lo com um estranho. São Francisco foi até aos leprosos e os brindou com seu abraço. É difícil abraçar um mendigo ou um louco. É difícil abraçar um colega que se firma na oposição competitiva e de busca de poder. Cada pessoa descobre, porém, em sua capacidade de abraçar, seu nível de hominização, seu grau de evolução afetiva (TORO, 1999:23).

Temos presenciado quotidianamente um nível de sofrimento muito grande em muitos de nossos educandos. No bojo do processo educativo é necessário levar em conta não somente a temática, mas a realidade do sofrimento e da felicidade na vida humana. No semblante do educando muitas vezes está estampado o brilho da felicidade e na maioria das vezes a névoa do sofrimento. Como não se mobilizar diante do sofrimento infantil, juvenil e adulto? O papel, a tarefa, a missão do educador não se reduz à transmissão ou construção do conhecimento. É uma missão que transita do sofrimento à felicidade.

Rolando Toro disse: “sin embargo, resulta extraordinaria-mente misterioso el hecho de que hayamos construido una cultura del sufrimiento” (TORO, 1999:23). O nível do sofrimento aumentou nos últimos anos da história humana. “La cantidad de sufrimiento que sobrelleva nossa epoca es inimaginable” (TORO, 1999:26). Em sua autobiografia Rose Mary Muraro refere-se à globalização como um processo de extrema concentração da riqueza e imagina que em duas décadas 80% da humanidade estará excluida do sistema MURARO, 1997: páginas iniciais).

Reconhecemos hoje que os sistemas sociais incluem imensos sacrifícios. Sistemas sociais, na maioria dos países hoje, se mantém sobre os pressupostos de altos níveis de sofrimento provocados pelos sistemas de trabalho e de exploração, pela concepção belicista, pela discriminação social, pelos hábitos de exigência em todos os micro-sistemas de poder, pelas enfermidades culturais (TORO, 1999:26). Estas e outras formas de sofrimento geram o “sentimento trágico da vida” de que fala Miguel Unamuno. Convicções filosóficas de que há um elemento trágico na existência humana iniciaram na Grécia. Os resíduos da fatalidade mítica continuam no fundo de nossa cultura. Inúmeros literatos, dramaturgos, poetas e pensadores são relatores máximos dessa cultura do sofrimento. Arthur Jores registra 1.500 enfermidades geradas exclusivamente por nosso estilo de vida (TORO, 1999:26).

Do oriente Buda postula uma serenidade com o amortecimento dos desejos e das emoções para fugir do sofrimento. No ocidente o nosso símbolo religioso é o crucificado.

Teríamos que seguir o rastro dos gênios que buscaram a trama perdida da felicidade e a encontraram: nas “Canções de bilitis”, de Safo; em alguns poemas de Gracilaso; no “Aleluia” de “O Messias”, de Haendel; nas Cantatas de Bach; na maioria das obras de Vivaldi e Corelli; nas pinturas de Boticelli; na “A Virgem das Rochas” de Leonarod da Vinci; nas esculturas Tântricas de Khajuraho; nos poemas de Tagore; em algumas composições de Gerard Harison; nas músicas e danças Hawaianas (TORO, 1999:26).

São alguns gênios que conheceram a essência da alegria. A maioria flui pelas vertentes da dor. O movimento Hippie buscou com inocência a felicidade num mundo sórdido, para logo ser contaminado e destruído pelo sistema e as drogas infiltradas pela CIA.

Rolando Toro acredita que a espécie humana será assinalada por uma essencial modificação das estruturas que geram sofrimento para ser trocadas por aquelas que geram felicidade.

A Biodanza é uma metodologia que propõe introduzir esta variável, modificando os microssistemas sociais, no sentido de restabelecer o vínculo originário entre dança, encontro e felicidade, movimento-alegria, movimento-amor. Se nos encontramos no espírito da vida podemos ter a certeza que a felicidade é uma condição intrínseca da existência” (TORO, 1999:27).

A fonte mais freqüente do sofrimento é a perda do amor. A repressão afetiva tem sua origem mais profunda num pavor metafísico e não tanto em causas culturais. Os efeitos imediatos do sofrimento são a desvalorização de si mesmo, regressão patológica e depressão impulsos destrutivos e autodestrutivos, a resignação diante do sofrimento perante a fatalidade. Ele influi profundamente em todos os níveis do comportamento. Um homem ferido tem uma força pavorosa que o torna perigoso para si mesmo e para os demais.

Os efeitos sobre o equilíbrio neuro-vegetativo podem baixar o nível imunológico dando margem a enfermidades psicossomáticas, infecções virais, surgimento de neoplasias. O câncer surge freqüentemente no segundo ou terceiro mês depois da perda ou do abandono de um ser muito querido.

Já dissemos acima, o sofrimento estampado no rosto das crianças e dos jovens nas salas de aula é muito freqüente. As causas são as mais variadas, principalmente as familiares onde se aninham todas as seqüelas de um mundo estruturado de forma injusta e onde se reúnem os mais variados problemas de ordem familiar e de relacionamento. O educador tem que ter presente esta realidade do seu aluno para desencadear, no contexto, um processo de educação integradora e competente. Nestes casos resta-lhe trilhar

“o caminho que vai do sofrimento à plenitude é diferente:

-depois de uma primeira etapa de desconsolo, o indivíduo sente certo alívio de sua angustia. Volta-se a si mesmo juntando as suas energias, com o que reforça sua Identidade.

-violência criadora: a hostilidade e a raiva, são conduzidos a fins construtivos pela criatividade.

-a atividade: em vez de paralizar-se redobra seus esforços no trabalho

-rebeldia frente às dificuldades: do fundo do sentimento de fracasso extrai a força para alcançar a plenitude” (TORO, 1999:28).

Diante da complexidade afetiva, do sofrimento e da alegria humanas, o desafio ao “gênio” criativo do professor o invoca para um processo de construção orgânica de sua própria plenitude afetiva no processo de construção da plenitude dos seus alunos. O projeto pedagógico do educador da escola centrada na vida visualizará uma perspectiva de ecologia humana nos seus horizontes. Ao tratar dos fundamentos da ecologia humana Rolando Toro afirma que ela se origina na rede de relações entre seres humanos.

Ao entrecruzarmos as linhas de potencial humano de vínculo, de prazer, de integração, de transcender e de criar, podemos provocar a fecundação recíproca de tais potenciais ou bloqueá-los e inibi-los. Depende da relação que facilitamos nos nossos educandos. As relações que geramos em aula são de nível orgânico, vivencial e noético porque os seres humanos são os ecofatores mais poderosos que existem. Originariamente os pais constituem a matriz ecológica dos filhos. O educador, na linha da ecologia humana, deve investigar as relações tóxicas ou nutritivas que modulam o desenvolvimento humano dos educandos. Cada um tem sua estrutura ecológica humana (TORO, 1999:29).

Ao educador e facilitador da vida cabe a imensa responsabilidade de propiciar as condições desse desenvolvimento. Contudo, as instituições da família, da escola, das igrejas e das religiões não se habilitaram para trabalhar com os potenciais afetivos, sexuais, vitais, e transcendentes dos filhos, dos fiéis, dos educandos. A Biodanza foi o primeiro movimento que teve a ousadia de propor-se um trabalho efetivo em relação a essas dimensões mutiladas no dia a dia pela cultura, pelo sistema social e pelas relações vigentes. O método criado por Rolando Toro, fundamentado em impressionante bagagem interdisciplinar de conhecimento, sistematizou uma maneira de desenvolvimento dos potenciais que utiliza a música, o movimento e a linguagem poética para desencadear vivências que potencializam a capacidade de amar e de vincular-se, de desfrutar do desejo e do prazer, de criar, de transcender, de ter saúde cada vez mais consistente.
A Educação Biocêntrica se propõe integrar o conhecimento escolar ao conhecimento da vida, produzindo um homem de sabedoria e não somente um técnico. Ela vem articular a superação das dissociações entre o saber e o viver, entre instrução e educação, entre o corpo e a alma. Ela integra as pedagogias que mais se concentram sobre a vida. Para isso ela integra também o estudo da ecologia humana, investigando as relações tóxicas ou nutritivas que modulam o desenvolvimento da existência no ambiente escolar e da sala de aula. Biodanza é um sistema eficaz para livrar-se da contaminação que geram as pessoas tóxicas e para estabelecer novas relações nutritivas.

Com a expressão: “as pessoas se instalam nos órgãos”, Rolando Toro, a partir das descrições de Lopez Ibor sobre a estrutura psicológica das pessoas tóxicas afirma que a convivência com as pessoas tóxicas é sempre prejudicial. A existência se torna catastrófica” (TORO, 1999:32).

É necessário separar-se de pessoas tóxicas e buscar pessoas nutritivas. Às vezes a comunicação se torna tóxica por diferenças ideológicas ou religiosas. Os ambientes das instituições de ensino, por não trabalharem as relações, por não promover processos de integração entre as pessoas, por estarem impregnadas pela competição e pela vontade de poder, desenvolvem um ambiente tóxico em torno de questões ideológicas. A intolerância com o pensamento diferenciado revela uma situação afetiva doente.

2.4. Sobre a inteligência afetiva
Segundo Rolando Toro, a educação deve criar mecanismos para desenvolver a Inteligência afetiva:

Na realidade a inteligência forma parte de todas as nossas funções e de toda nossa história existencial. Pensamos não só com o cérebro, mas com todo nosso corpo."

"...Penso que o fator permanente que integra e dá estrutura à inteligência como função global é a afetividade."

"... A inteligência afetiva não é um tipo especial de inteligência. Todas as formas diferenciadas de inteligência: motora, especial, mecânica, semântica, social etc, tem uma fonte comum: a afetividade." (Toro. apostilas do módulo de Educação Biocêntrica)(Cit. por CAVALCANTE, 2001:44).

A afetividade é um fenômeno mais amplo que a emoção, abrangendo também os sentimentos e desejos. Para desenvolver a inteligência afetiva a Educação Biocêntrica pretende despertar a afetividade nos educandos, ampliando sua percepção e expandindo sua consciência ética. Isto faz com que não se permita o bloqueio da afetividade, o controle e a domesticação próprios de um ambiente competitivo de uma escola atrelada ao sistema econômico e cultural vigente.
O desenvolvimento da inteligência afetiva permite a evolução integrada de todas as formas de inteligência, integra e organiza a percepção e o pensamento. Todas as pessoas têm essa capacidade em potencial. A influência da dissociação afetiva de nossa sociedade afeta a auto-estima das pessoas, sua capacidade de resolver conflitos e principalmente a capacidade de compreensão e amor. Depois da sexualidade, a afetividade é uma função psicológica das mais reprimidas nas relações sociais, nas relações escolares, nas relações políticas e econômicas da nossa sociedade.

A afetividade tem uma base instintiva e se manifesta nas primeiras vivências de fome e saciedade, de desproteção e proteção, de cuidado, de contato e vínculo do bebê com a mãe. Diz Ruth Cavalcante (2001, 46), "a afetividade está vinculada à chamada protovivência que é a vivência inicial da vida humana relacionada à fome, à nutrição, à necessidade de proteção por meio de continente calor humano, assim como pela comunicação entre as pessoas"

...

(continua abaixo)


Fonte:
http://www.pensamentobiocentrico.com.br/content/ed02_art02.php

« Última modificação: Janeiro 09, 2007, 12:40:11 por Earth First » Registado

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(continuação)

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3. Tendência Evolucionária da Educação

Lais Bezerra, em sua monografia de formação como Facilitadora, defendida no Encontro Nordestino de Biodanza em 1992, em Terezina, acrescenta uma nova tendência de educação à já conhecida classificação de José C. Libânio: "Educação Biocêntrica: uma tendência evolucionária em educação". Ao lado da Educação Biocêntrica estariam colocadas a Tendência Dialógica da Pedagogia de Paulo Freire juntamente com o Construtivismo e o Holismo. As quatro tendências têm convergências que, no conjunto, permitem ser classificadas como evolucionárias e tem especificidades próprias.

Colocamos a afetividade como ponto de convergência entre a Pedagogia Biocêntrica, originária da integração da Biodanza e a Educação Formal, e a Pedagogia Dialógica de Paulo Freire. Colocamos, acima, e de forma ampla, os fundamentos da compreensão Biocêntrica sobre a afetividade e agora vamos iniciar o exercício de refletir, a partir dessa referência, sobre as convergências que integram as duas perspectivas na Tendência Evolucionária. A origem dessa denominação tem referência à idéia de Cultura Evolucionária de Rolando Toro frente à cultura ocidental.

A sua proposta trazia a permissão para a expressão das emoções, da alegria e do prazer, sendo o amor comunitário a base da consciência comunitária e da justiça social. A Biodanza seria o caminho para a mudança para o novo estilo de viver. Tem raízes também em Fritjof Capra, que em O Tao da Física aponta para "o início de um espantoso movimento evolutivo" expresso na "preocupação crescente com a ecologia, o forte interesse pelo misticismo, a progressiva conscientização feminista e a redescoberta de acessos holísticos à saúde e à cura, (que) são manifestações da mesma essência evolucionária" (CAPRA, 1983:17). A evolução do pensamento de Capra em O ponto de Mutação, a Teia da Vida, traz na essência da aplicação do seu pensamento em rede à vida social, a presença dos vínculos afetivos como fatores estruturantes das condições de vigência para as organizações. Isso é explorado em “As Conexões Ocultas” publicado recentemente.

Nossa pequena e incipiente abordagem é apenas um inicio de humilde reflexão, como uma abertura de caminho a vislumbrar a importância da consideração da afetividade como temática essencial da educação, como pode, alem de ser a vivência básica que sustenta o processo educativo, ser operacionalizada em projetos pedagógicos, em objetivos, em dinâmicas, em relação educador-educando. Aqui somente iniciaremos o processo de reflexão.

3.1. Educação Biocêntrica e a Pedagogia Dialógica de Paulo Freire: a afetividade em convergência
A referência básica, portanto, da análise dessa convergência é a afetividade.
Na Tendência Evolucionária da Educação a Tendência Biocêntrica articula um processo de "reeducação afetiva através do vínculo; o desenvolvimento da inteligência afetiva; a aprendizagem reflexiva e vivencial e o cultivo das energias organizadoras e conservadoras da vida" (CAVALCANTE, 2001:41). É uma tendência que se caracteriza por propiciar o fortalecimento do educando e por tomar a vida como referência para a construção do conhecimento através da relação consigo mesmo, com o outro e com o cosmo. Seu objetivo é a reeducação afetiva da vida e a ampliação da consciência. Os conteúdos de ensino-aprendizagem são o cultivo de energias organizadoras e conservadoras da vida. O método de ensino-aprendizagem se caracteriza pelo vinculo impulsionador das estruturas cognitivas, tendo como referência a vivência, os instintos e a expressão dos potenciais genéticos. Também fortalecer a função de conexão com a vida.(Cf. CAVALCANTE, 2001:41-42).

A tendência Dialógica é critica, questionadora e antiautoritaria. Dá ênfase à transformação social através da conscientização do educando. O conteúdo de aprendizagem é extraído da problematização da prática da vida dos educandos (temas geradores). O diálogo como ato político da ação de educar. Valorização da experiência vivida como base da ação educativa. O diálogo é um ato de permissão e de cuidado para que o outro se revele e nisto aconteça como identidade.
Esta tendência se caracteriza pela transformação social através da conscientização do educando e o diálogo como ato político de ação educativa. O objetivo da escola é ser instrumento de libertação do educando através da consciência do seu papel histórico transformador. O conteúdo da aprendizagem é extraído da problematização da prática da vida do educando, codificado nas palavras e temas geradores. O método de ensino valoriza a experiência do educando expressa no "círculo de cultura". A escola é o espaço eminentemente político(Cf. CAVALCANTE, 2001:39).

A Educação Biocêntrica considera a cultura, mas de dentro para fora, através da expressão dos potenciais, considerando o ritmo de cada pessoa. Considera as contribuições da Educação Holística por concordar que as pessoas sejam educadas para plenitude. A Educação Dialógica apresenta o mesmo axioma da Educação Biocêntrica que é o profundo respeito à vida. Na fala de apresentação de "A Cartilha da Ana e do Zé", a professora Luiza Teodoro nos diz: "Essas palavras geradoras quisemo-las não apenas geradoras fonéticas, mas provocadoras de uma reflexão, cujo alcance dependerá, tanto das possibilidades do educando como da capacidade do professor na condução do processo de descoberta do pensamento. Assim, começamos pela palavra mais abrangente e, ao mesmo tempo, mais próxima: Vida. Viva a vida...." .(Cf. CAVALCANTE, 2001:49).
Os dois principais temas geradores da teoria freireana são conscientização e mudança. Mas a vocação mais profunda da obra e da vida de Paulo Freire é propiciar a expressão dos oprimidos, sendo o método e atividade pedagógica o diálogo. Freire parte da convicção de que o homem foi gerado para se comunicar com os outros. O conhecimento é um processo de criação e recriação juntamente com a criação e recriação social. Neste particular se reflete a teoria marxista onde a realidade social e do conhecimento é uma produção que resulta do processo de intervenção humana no mundo através do trabalho. A sistematização dos conhecimentos ocorre nos círculos de cultura. Todos estes elementos da perspectiva pedagógica de Paulo Freire têm um elemento básico de suporte: a vigência de um profundo amor pelos oprimidos e pela sua expressão no pensamento e na ação libertadores, construídos coletivamente através do aprofundamento dialógico. O diálogo é o principio da ação ético-política, da ação pedagógica e de relação das pessoas. Existem a partir de uma perspectiva de afeto. Dialogar é permitir que o outro se expresse, é um ato profundamente ativo de promoção, de qualificação e de valorização que Paulo Freire tem essencialmente incorporado como fundamento da sua atividade educativa.

O pensamento de Paulo Freire reúne a convergência de várias correntes filosóficas como a fenomenologia, o existencialismo, o personalismo cristão, o marxismo humanista, o hegelianismo, mas a sua síntese filosófica demanda o diálogo e a consciência social como formas de superar a dominação e a opressão entre os seres humanos. Para que haja diálogo é necessário, como disse acima, a disposição de permitir e facilitar que o outro se expresse e aconteça na sua realidade, na sua identidade, na sua autonomia. Sem a amizade, o amor solidário, sem esta postura ética radical não há construção do conhecimento e, tão pouco, a libertação da opressão.

A obra de Paulo Freire em algumas passagens se refere à exigência da afetividade como fundamento do processo pedagógico e social, contudo, nas entrelinhas de seu pensamento, da sua ação, inserida nos procedimentos didáticos, nas dinâmicas de grupo, nos círculos de cultura, nos processo de discussão crítica da realidade, na relação efetiva de Paulo Freire com seus educandos, está presente de forma densa e efetiva a afetividade, o amor solidário, a compaixão, a ternura, a qualificação e a crença na capacidade do oprimido, em comunhão com o outro, se libertar através de um processo pedagógico-polítco de conscientização e de engajamento pela mudança.

O surpreendente sucesso de alfabetizar, conscientizar e permitir a politização de homens e mulheres camponeses, oriundos de séculos de alienação, em 40 dias, não é, com certeza, resultado somente de um método de trabalho montado sobre a cooperação e a construção coletivas, mas, antes de qualquer coisa, na atitude amorosa de ouvir, de reconhecer, de valorizar a experiência do campesino, de cuidado amoroso em facilitar a palavra de cada um, a expressão de cada um, de resgatar o valor originário da sua singularidade, na sua comunidade. Neste sentido, Paulo Freire é biocêntrico e converge na raiz com o pensamento e a metodologia da Educação Biocêntrica que valoriza a afetividade como base estrutural da integração da pessoa humana, como base estrutural da educação, da economia, da política, etc. A Pedagogia do Diálogo e a Pedagogia Biocêntrica são integradas à vida.

É na conexão com a vida, na formação de vínculos através do contato que a Biodanza desencadeia um processo vivencial de conhecimento que pode ser elaborado e integrado em nível racional. O homem por inteiro na sua corporeidade é valorizado e assumido em seus instintos, em sua percepção, em sua intuição, emoção e sentimentos, num processo que facilita a expressão de seus potenciais de criação de vínculos, de desfrutar do prazer em suas ações, de utilizar a sua potência energética vital de ação e de repouso no mundo, de expressar sua criatividade na beleza e na transformação ativa da realidade, na sua capacidade de conexão consigo mesmo, com o outro e com a natureza. O eixo articulador do processo de expressão e amadurecimento da identidade humana é a afetividade.

O pensamento da Visão Biocêntrica será sempre um pensamento aberto e em conexão com a vida. A primeira grande manifestação da vida é a amorosidade que permeia o universo inteiro e se expressa no homem como afetividade. No processo amoroso a vida é sempre surpreendente. O processo da vida é um movimento de criação expansiva que não atingiremos jamais na totalidade. A revelação da vida é constante e nossos métodos de abordagem e de articulação da realidade serão sempre limitados. A construção da verdade será sempre um processo de vinculação à surpresa da vida, de conexão com o cosmo e com o outro pelo mistério do amor.

De um modo geral, podemos considerar que a educação em Paulo Freire se desenvolve por essa atitude amorosa de cuidado nutritivo, de promoção e de qualificação da vida do educando, promovendo sua auto-estima, sua autonomia e determinação no mundo, força essa de transformação política real, pela criação e estabelecimento de vínculos afetivos. Muitos políticos de esquerda não realizam um processo político de libertação da opressão porque estão dissociados afetivamente dos seus projetos, o seu discurso não tem raiz na vivência amorosa e ética. Centrados no poder trilham os caminhos da dominação. O contrário do amor e da afetividade diz Rolando Toro é o poder (de dominação) permeando a sociedade guiada por uma cultura da competição e da exclusão. Uma verdadeira patologia afetiva esta disseminada pela competição, pela raiva excessiva, pelo ódio e pelo racismo.


Palavras finais
A natureza da nossa proposta aponta para a continuidade deste trabalho de uma forma mais ampla e ao mesmo tempo minuciosa dos aspectos da Educação Biocêntrica e da Educação Dialógica para que se cumpram nossos objetivos. Por ora quisemos chamar atenção para essa possibilidade e também para a radical importância que tem a afetividade para a educação assim como é também para a economia, a política e para todas as dimensões sociais.
Gostaríamos de despertar o interesse dos pesquisadores para voltar-se para essa dimensão uma vez que ela, segundo os estudos atuais, representa a base estrutural para toda a vida social.


Fonte:
http://www.pensamentobiocentrico.com.br/content/ed02_art02.php


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