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Tópico: Biocombustíveis - Uso de cereais para combustível agravou fome a nível mundial  (Lida 435 vezes)
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« em: Abril 21, 2008, 01:47:25 »


Biocombustíveis - Uso de cereais para combustível agravou fome a nível mundial

Jornal de Notícias
Eduarda Ferreira

Nem tudo o que parece verde é. Esta a lição que a
nível global está a ser aprendida. A procura de
alternativas ao petróleo teve já alguns efeitos
desastrosos nas reservas alimentares do planeta,
disseram-no já diversas entidades das Nações
Unidas, cujos alertas previam mais fome, revoltas
dos pobres em muitas regiões e também um desgaste
ecológico. A crise do pão já está a ser sentida
por milhões, na quantidade e no preço.

Já há tumultos em alguns pontos do globo, como os
Camarões, Indonésia, Haiti e o Níger. E a
directora do Programa Mundial de Alimentos, da
ONU, avisou que terá de ser retirada a ajuda a
100 mil crianças, se os doadores não
acrescentarem os seus subsídios para compensar a
subida do preço dos cereais. Os Objectivos do
Milénio para retirar da fome alguns milhões de
pessoas dificilmente serão cumpridos nestas
circunstâncias. Esta é só uma faceta da
realidade, que também inclui os muitos milhões de
África, Ásia e América Latina já antes a braços
com a carência alimentar. Havia 800 milhões de
famintos no mundo. Tudo corre agora de mal a pior.

Efeitos perversos

Segundo a ONU, desde há 40 anos que as reservas
alimentares do planeta não estavam tão
desprovidas. No "banco dos réus" estão as
mudanças climáticas, causando perda de colheitas.
Mas não só a tentativa de se substituir o uso
exclusivo do petróleo por biocombustíveis , com o
intuito de diminuir as emissões de gases com
efeito de estufa, teve efeitos perversos.

Desflorestou-se mais para fazer cultivo de
cereais e oleaginosas. O impacto ambiental não se
ficou pela perda de largas zonas de floresta
cheia de biodiversidade, como vem acontecendo no
sudeste asiático; a factura para o planeta foi
paga em mais emissões de CO2 devido às queimadas
e ainda pelo uso de fertilizantes que também no
seu fabrico contribuem para tais emissões. Países
como a Holanda, que proclamavam uma filosofia
verde, e por isso investiam em palmares para
produção de biodiesel no sudeste asiático,
manifestaram-se perplexos com a reversão dos
efeitos.

Solos tradicionalmente afectos aos cereais e a
oleaginosas como o milho e girassol tiveram a sua
produção desviada para o fabrico de
biocombustíveis.

Não é de estranhar que, ontem, em Roma, no Fórum
Internacional de Energia, tanto um membro da
OPEP, ministro do Qatar, como o alto responsável
por uma das gigantes petrolíferas tenham dito que
os biocombustíveis não são a solução energética e
que a crise do pão não cabe ao ouro negro saído
dos seus poços. Na verdade, para a alta do preço
dos cereais há outros contributos está em acção
também "um bando de especuladores e bandidos
financeiros", acusou ontem Jean Ziegler, relator
especial da ONU para o direito à alimentação. No
coro dos protestos entra também o ministro alemão
da Agricultura, Horst Seehofer, que numa
entrevista ao "Bild am Sonntag" fustigou os
grandes grupos agro-alimentares pela forma como
dominam o comércio de sementes e as impõem,
nomeadamente as geneticamente modificadas, aos
agricultores. Tais práticas nos EUA, segundo
disse, vão determinar o aumento do preço das
forragens para animais na ordem dos 600%. Eis aí
outro problema para o abastecimento alimentar,
que teria de conseguir a inclusão de faixas das
populações de economias emergentes, como a China
e a Índia, ascendendo na última meia-dúzia de
anos a uma classe média e a um prato mais cheio.


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